domingo, 15 de dezembro de 2013

O ato (Tétrade do Sentido - IV)

Imersos na irracionalidade do desejo
Relativiza-se a noção de tempo e espaço
Não importa mais onde nem quando
Inertes tornam-se um ao outro

Úmidos gestos
O pulso quase explode
Frio no peito
Calor no ventre

Em ações involuntárias
Os corpos se descobrem
Quadris inquietos

A fala se cala
As bocas navegam
Em uma busca inconstante
Pelos detalhes alheios

Por alguns momentos
Esquece-se de si
Tornando o outro parte sua
Uma posse ainda não explorada

Novas descobertas táteis
Iniciadas no primeiro toque
Os sabores ímpares
Apreciados sem pudores

Roçando a pele
A transpiração de um se faz do outro
Entre mordidas e carícias
Sorvendo os contornos e pelos

E no último ato
O derradeiro suspiro crescente
Cala-se no mais sonoro sussurro
E do gozo faz-se o silêncio

Ressurge o abraço, o beijo, o toque
Renascem todos os atos em um só

Por fim, os sorrisos vívidos dos semblantes
Aparecem outra vez
Sorrateiros e subitamente
Concluindo o eternizado momento
Donde em alguns instantes dois tornaram-se um


Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 8 de dezembro de 2013)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O toque (Tétrade do Sentido – III)

O doce navegar
Na imensidão secreta do outro corpo
Os dedos transformam-se em antenas
Que captam a singularidade
Dos pequenos detalhes alheios

Os pés contribuem nesta especulação
Esta busca sem rumo
Procura cega do desconhecido
Donde em cada momento descobre-se um novo detalhe
Um novo toque

Auxiliado pelos lábios
Segue-se neste passeio embriagado
Esta digressão sem meio, início ou fim

E perdidos no tempo
No universo paralelo dos corpos
Alimenta-se o desejo
De descobrir mais do outro

Nesta descoberta
Nutre-se o gozo pelo toque alheio
Pela busca do outro em seu corpo

Este diálogo mudo
A troca de gestos improvisados
Faz-nos viver um universo construído pelos corpos
E repletos de si
Esquecer-se do mundo externo

E quando se intensifica este passeio
Torna-se inevitável
A transcendência do toque
Age-se sem saber
E subitamente faz-se um novo ato...


Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 8 de dezembro de 2013)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O beijo (Tétrade do Sentido – II)

O beijo
é um poema inacabado
Trapaceia o tempo
transformando minutos em segundos

Uma carícia
Um sacolejo
Rebuliço de sentimentos

Impulsivo ou contido
É o cúmulo do sorriso
O fechar dos olhos
E o abrir da alma

Musica os lábios
E os transforma
Em pétalas de rosas

Saboroso, amoroso
É o prelúdio
do suspiro

A explanação do indizível
O discurso silencioso do carinho
O início audacioso do desejo
E do encontro ao íntimo alheio

Rápido ou vagaroso
Furtado ou oferecido
Ele coleciona detalhes secretos
Compreendidos apenas por seus participantes

Ardente ou carinhoso
Atrevido ou cauteloso
Ele é a doce manifestação do querer bem.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 3 de dezembro de 2013)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O abraço (Tétrade do Sentido – I)

Anula a ausência
E transmitindo um carinho doce
Oferece o peito a outrem

E esta entrega
Natural, automática,
Dissolve a solidão

Ele acolhe
Presenteia de força
Benefício mútuo e equilibrado

Uma troca democrática
Diálogo muscular
Silencioso

Forte, esmagador
Acanhado, tímido
Ele é o sorriso do peito

É o mais simples gesto
Descomplicado, prático
Orgânico

Enxuga lágrimas
Dissolve angústias
Remedia a tristeza

E dele há quem fuja
De soslaio se esquivam
Deste gesto simples

Porém, inevitavelmente
Dele farão uso
Acolhendo seu acolhimento.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 4 de dezembro de 2013)

domingo, 1 de dezembro de 2013

A maneira interessante de me desconcentrar

Num pequeno detalhe
Minha concentração dissipou-se
No verão surge a descoberta
Dos bonitos desenhos tatuados
Nas pernas da interessante moça

Na sua mostra natural, discreta
Cheguei a distrair-me de minhas ações

Ah, maneira interessante
de me desconcentrar
Certamente hesitei discretamente não demorar
Em observá-la

Mas esta doce visão
Ilustrou minha curiosidade
Alimentando meu imaginário
Nos contornos daqueles traços...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 1 de dezembro de 2013)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A imagem da janela no 15º andar numa sexta de manhã

Alva
A imagem transforma a paisagem
E a neblina impera

A névoa cobre o lago
Engole-o
E com sua bruma o faz não ser mais

Seu cheiro úmido
Ilusão sensorial
Nostalgia

E subitamente o sol dissolveu os versos anteriores...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 26 de julho de 2013)




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O retorno do findado

Tu sumiste de mim
Me amputou de tua vida
Me soterrou na tua história
Subitamente

Regressou tempos depois
Com um olhar de arrependimento
Um sofrimento contaminador
Incoerente

Embaralhou minha mente
Sacudiu meu sentimento
Liquidificou minhas emoções
E desabei

Tua súbita conclusão
Confusa, imprudente, dolorosa
Bagunçou minha convicção
Tropecei

Acordei bêbado
Nauseado de dúvidas
Tonto de culpas
Sofri

Me vesti de personagens
Me imanei de omissões
Deturpei minha moral
Cai

Enlouqueci minha existência
Nada mais via
Apenas avistava sonhos distorcidos
Calado

Arranquei minhas vendas
E voltei a enxergar
Agora vejo teu olhar
No passado

Alexandre Fritzen da Rocha

(Montevideo, Uruguay, 11 de setembro de 2013)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Anagramas: emocional a cognitivo (Gana motivacional: egos não criam)

Instantes difusos, congelas e usas a minha razão
Tu, ages confusa, dizes não ser, alinhas, montas a si

Ai, mente atroz, move, lida,
Teima e traz novo dilema

E doce o labirinto ao lago d’alma
Ama toda. O belo, cálido ri, ao negá-la

Instante coeso, rude, desistes, por fim
Por te ser confuso, e sim, distante de si

Dê suas porções generosas da dúvida, e
pegues rosas, serão unção de vidas

Alexandre Fritzen da Rocha.
(Porto Alegre, 20 de julho de 2013) 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Noutro novembro

O princípio de novembro
Remete-me nosso prólogo
O início do encontro
Onde de ti desencontrei-me

Embora tenhamos ousadamente
Provocado o destino
A distância geográfica de nossos corpos
Censura nosso senso

Mas em outrora de ti furtei um beijo
Provando Platão nos lábios teus
Transformei a ficção de nosso amor
Em poema concreto

Mas o tempo corroeu o verso
O conto se corrompeu
Transformei nosso romance
Em uma crônica inacabada...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 01 de novembro de 2013)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Graça

Meio sem graça
A graça pela graça da desgraça
E que desgraça sem graça!
Até de graça fico sem graça
Desgraça!

Mas a graça terei de graça
Se da desgraça fugir
Com graça...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 21 de outubro de 2013)

domingo, 20 de outubro de 2013

Olhar fugitivo

Meus lábios renascem nos teus
Eles passeiam pelo teu corpo
Em cada centímetro de pele

Teu olhar tão fugidio
Que mistérios esconde?
Deixa-me te ler

Custas a entregar-te
Exitas em compartilhar
Por fim, entrega-te num sonho

E então me repletas com teu brilho
Teu suave gemido
Devaneio sonoro

Nossa comunicação muda
Com suspiros crescentes
Transcende a fala

Me perco em teu aroma de mar
Teus traços raros
Teus delicados pés
  
Tampouco sei como atuar
Te cortejo em "rallentando"
E te aprecio em “tempo rubato”

E minha coda faz-se pronta
Aproveitar-te sem pudores
Guardando-te em minha eternidade

Alexandre Fritzen da Rocha
(Montevideo, Uruguay, 11 de setembro de 2013)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O adeus à loucura

Tchau, loucura!
Suma com tua paranoia lasciva
Teus castelos e dragões

Abandone este corpo
Que há tempos já não te quer mais
E hoje te ignora

Fuja, suma!
E não bata mais nesta porta
Pois ela está trancada para ti

E quando pensares em regressar
Lembra-te que aqui não tens mais abrigo
A não ser que queiras enlouquecer a ti
Por tentar, em vão, louco me tornar...


Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 6 de outubro de 2013)

sábado, 5 de outubro de 2013

Micro-romance de ônibus

Te vi de repente
E em poucos segundos
Reparei o teu olhar
Desviaste repentinamente
Ao perceber teu observador

Teu olhar amendoado
Curioso, tímido...
Por trás dos óculos
Encontrou-me e desviou
Num jogo fugaz

Com teu olhar
Procurava e fugia
Uma troca tímida
Um lampejo doce
Uma paixão delicada

E o nosso romance
Que nasceu e morreu
Findou sem começar
Na parada de ônibus
Tão distante do teu olhar.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 28 de setembro de 2013)

sábado, 28 de setembro de 2013

Despertou repentinamente e sentiu-se estranho

E o seu adormecimento
Tão sorrateiro e repentino
Longínquo e iminente
Cessou...

Repleto de sonhos mortos

Acordou com uma ressaca voraz
Recordando o tempo anterior
Com lembranças de si não pertencentes a ele

A sensação de ter vivido outro alguém

O assustou e perturbou
Desalinhou sua mente
Sedenta de pensamentos apolíneos

Desligar-se da culpa

Desalinhar-se dos desejos distorcidos
"Des-projetar" um futuro de outrem
Exercício banal porém difícil para ele...

De coisas estúpidas deu-se conta

E observou também
Que os desejos dos tempos de fogueira
Vão embora como o fogo sem a lenha

Eles são tão desprovidos de razão

Por isso irritam seu emissor
Porque aceitar a imbecilidade de outrora
É um ato hercúleo

Mas remoer a embriaguez de meses passados
É como acordar e realimentar o enjoo
Passe a vomitar, por favor
E cuspa para fora o que te desagrada...

E não volte a ingerir estas náuseas estúpidas...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Montevidéu, Uruguay, 10 de setembro de 2013)

sábado, 21 de setembro de 2013

Frio

E ele retorna
Com sua áspera presença
Dele distancia-se o encontro
E alimenta-se a introspecção...

Atravessa as ruas e rostos
Frisa os olhos
Alimenta as rugas
E envelhece os olhares

Apreciando um copo de vinho
De sabor marcante
Miro da janela
O semblante da noite urbana

Gélida, cumprimenta o frio.


Alexandre Fritzen da Rocha
(Buenos Aires, Argentina, 13 de setembro de 2013)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

ESMA 74 (Homenaje a las víctimas de la dictadura argentina)

Roban nuestra dignidad
Toman nuestros hijos
Hacen la inducción del nuestro sueño
Y nos echan en el mar

Pero la libertad se queda con nosotros


Alexandre Fritzen da Rocha
(Buenos Aires, Argentina, 13 de setembro de 2013)

sábado, 7 de setembro de 2013

Tempo

E as luzes piscam quase loucas
Na noite da cidade
Choramingam o dia que passou

No sense
Sinto a saudade de jamais ter sido
E preocupo-me com o porvir
Sendo que ele não há...

É interessante este olhar
Este fetiche de Wells
Impalpável, incontrolável...

E neste limbo temporal
Me sinto um astronauta
Flutuando na nave de minha consciência
E chegando a ontem e amanhã sem ser...

Alexandre Fritzen da Rocha

(Porto Alegre, 7 de julho de 2013)

sábado, 31 de agosto de 2013

Tatuagem

E ela tatuou o corpo dele com suas unhas
Num impulso ardente
Rasgou sua pele
Demarcando sua propriedade.

Um misto de raiva e paixão
Num ímpeto lascivo
Marcou seu corpo
Com as manchas de seu desejo

E ela também mordeu
Imprimiu sua arcada dentária
Seus caninos foram os mais pronunciados
No desenho que realizou em sua pele

Estapeou com ódio nos olhos
E quis puni-lo
Necessitava demonstrar sua autoridade
E aliviar sua dúvida

E ele se divertia
Assustado e extasiado
Culpado e orgulhoso
Sentindo o gozo de ser punido

E no final os dois se amaram
E acordaram juntos
Abraçados e sorrindo
Pensando no devaneio do dia anterior

Alexandre Fritzen da Rocha.

(Porto Alegre, 26 de agosto de 2013)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A insônia do sujeito indeterminado

Expurgas os males e agouros
Com um copo bem cheio de lucidez
E os medos espantas
No corpo nu da razão

Atiças teu prejuízo
E debochas de tuas perdas
As vê como tolas
Circunstâncias encharcadas de nada

Chapa tua memória
Embriaga os teus medos
Desata a culpa
Daquilo que não foi

Triste cina de torna-te responsável por tudo
Egoico, ser emanado
De tolices e distorções
Com versos flatulentos e imperitos

E a culpa construída
Que cospe na tua cara
Escarra dores
Que confundem tuas ações

Dormes, então, no teu berço
Coberto por pensamentos cíclicos
Inchados de lágrimas
E molhados de suposições

Alexandre Fritzen da Rocha.

(Nova Petrópolis, 11 de agosto de 2013)

sábado, 17 de agosto de 2013

O sol na manhã de inverno

E o sol adentra a casa
Invade a sala
E despido, espia pela janela
Tenta, em vão, não ser visto nela

Na manhã fria tenta compensar
O gélido clima
E acalma
Parece abraçar a alma

E dele bebo
Amenizo, assim, com calor
A gélida e lúgubre sensação
Dos frios que foram e os que virão

Ele anuncia o recomeço
O novo dia
Um ciclo que leve
A sua morte em breve

Renascerá noutro tempo
Cumprindo sua rotineira função
Dar luz e vida
E adormecer em seguida...


Alexandre Fritzen da Rocha.
(Porto Alegre, 22 de julho de 2013)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Manhã...

Em teu corpo me re-invento
Me busco e me encontro
Me perco e me escondo
Re-significo meus sentidos

Minhas mãos,
Descobrem em ti poesias
Com versos em Braille
E te recito...

Minha boca,
Percorre teu corpo
Liba teus sabores
Como uma bebida angélica

Meus olhos,
Vislumbrados e perdidos
Observam os pequenos detalhes teus
E encantos se perdem num sonho

Meus ouvidos,
Apreciam tua fala
Sonoridade feérica
Doce sinfonia...

Meu nariz,
Refém do teu sândalo
Respira-te como um boticário
E agracia teu aroma...

E acaricio tua manhã
Eu, um observador apaixonado
Tu, um presente para minha alma
Sorriso de minha existência...


Alexandre Fritzen da Rocha.
(Porto Alegre, 2 de agosto de 2013)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Será?

Será que há razão
Nos pensamentos fugidios?
Há solidez
No impulso brando de minha fala?

Será que minha fuga insana
Da tua voz
Corresponde ao medo
De ouvi-la?

E teu semblante
Que se esconde em meu íntimo
Tua presença constante
Que demarca minh’alma...

Súbita dúvida,
Atroz, voraz, veloz
Me digas, mente minha
Demente estás?

Ou apenas estás
A jogar um jogo funesto
Um jogo do erro
E do acerto incerto

Ouço-te com atenção
Mas mostra-me diálogos ambíguos
E eu, vívido
Te obedeço no impulso

Fazes troça de mim
Com tua doce carícia
Ausente
Fugaz...

Concluo que ouvir-te
Nada mais é que "insanificar-me",
Acalentar minha dúvida
E tornar-me teu espantalho...

Alexandre Fritzen da Rocha.

(Porto Alegre, 27 de julho de 2013)

sábado, 27 de julho de 2013

Ode à Lembrança Póstuma

Fui seduzido pela dor
Ela inflama, proclama, reclama
A vida afana
E brinca com o corpo

A dor persegue
Perfura
Ela é aguda e amarga
E cicatriza-se com uma ruga

Derramada na alma
A saudade
Uma ausência crua
Petrifica as ações

E turva torna-se a mente
Demente, quase
Acostumada a pensar com auxílio
Atrofiada para andar só

Mas ela resiste
Não lhe é dado escolha
Ela renasce do nada
Recria-se a cada pouco.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 13 de julho de 2013)

sábado, 20 de julho de 2013

Quando...

Quando não se distingue mais
A fronteira entre um corpo e outro
Onde cada curva e cada gesto
São motivações para um sorriso...

Quando o cheiro da pele
O som da voz
São as sensações mais gratas
E delas aprecia-se com graça

Quando os pés se juntam como imãs
As mãos se encaixam como tetris
Quando o abraço é inevitável
E preenche o íntimo completamente

Quando um corpo transpira o outro
A respiração  torna-se uma
As palavras mostram-se inúteis
E a fala se faz no silêncio, no olhar...

Quando sente-se embebecido do outro
Embriagado, encantado
A presença física não se faz indispensável
Percebe-se que o outro no seu íntimo instalou-se, impregnou-se...

Quando isso ocorre,
Duas vidas tornam-se uma só
E vivem em sua eternidade
Linda e finita como uma flor...


Porto Alegre, 11 de julho de 2013.

sábado, 13 de julho de 2013

O triste destino do chinelo descalço

Aquele chinelo
Abandonado no canto do quarto
Sente-se só
Foi abandonado e não é mais vestido
Não protege os pequenos pés que antes calçava

Ele sente-se inútil
Emite lembranças ao quarto
E cumpre uma função diversa de outrora
Ele sofre pelo esquecimento
E não entende porque foi abandonado tão subitamente

Aquele chinelo
Não pode ser calçado pelo habitante do quarto
E fica, junto a calçados maiores,
À espera de seus pés companheiros
Que nunca chegam...

Ele sente-se intruso
Tem a impressão de estar no lugar errado
Quer ir embora e reencontrar os pés adequados
Deseja cumprir sua função natural
E não ser uma lembrança esquecida no canto do quarto.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 8 de julho de 2013)

Sobre a chuva

Pinga nua e solta,
Abafa o sol
E lúgubre se despedaça no chão

Quase infame se arrasta
Preenche a tarde
E aos poucos morre distante

Cada pingo uma esquete
Um sainete...
Embebecido de significados e sabores

E ela escorre devagar
Como um choro calado
Um pranto contido

E a observo com encanto
Embebecido pela melancolia
De sua sonoridade muda...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 7 de julho de 2013)