sábado, 27 de julho de 2013

Ode à Lembrança Póstuma

Fui seduzido pela dor
Ela inflama, proclama, reclama
A vida afana
E brinca com o corpo

A dor persegue
Perfura
Ela é aguda e amarga
E cicatriza-se com uma ruga

Derramada na alma
A saudade
Uma ausência crua
Petrifica as ações

E turva torna-se a mente
Demente, quase
Acostumada a pensar com auxílio
Atrofiada para andar só

Mas ela resiste
Não lhe é dado escolha
Ela renasce do nada
Recria-se a cada pouco.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 13 de julho de 2013)

sábado, 20 de julho de 2013

Quando...

Quando não se distingue mais
A fronteira entre um corpo e outro
Onde cada curva e cada gesto
São motivações para um sorriso...

Quando o cheiro da pele
O som da voz
São as sensações mais gratas
E delas aprecia-se com graça

Quando os pés se juntam como imãs
As mãos se encaixam como tetris
Quando o abraço é inevitável
E preenche o íntimo completamente

Quando um corpo transpira o outro
A respiração  torna-se uma
As palavras mostram-se inúteis
E a fala se faz no silêncio, no olhar...

Quando sente-se embebecido do outro
Embriagado, encantado
A presença física não se faz indispensável
Percebe-se que o outro no seu íntimo instalou-se, impregnou-se...

Quando isso ocorre,
Duas vidas tornam-se uma só
E vivem em sua eternidade
Linda e finita como uma flor...


Porto Alegre, 11 de julho de 2013.

sábado, 13 de julho de 2013

O triste destino do chinelo descalço

Aquele chinelo
Abandonado no canto do quarto
Sente-se só
Foi abandonado e não é mais vestido
Não protege os pequenos pés que antes calçava

Ele sente-se inútil
Emite lembranças ao quarto
E cumpre uma função diversa de outrora
Ele sofre pelo esquecimento
E não entende porque foi abandonado tão subitamente

Aquele chinelo
Não pode ser calçado pelo habitante do quarto
E fica, junto a calçados maiores,
À espera de seus pés companheiros
Que nunca chegam...

Ele sente-se intruso
Tem a impressão de estar no lugar errado
Quer ir embora e reencontrar os pés adequados
Deseja cumprir sua função natural
E não ser uma lembrança esquecida no canto do quarto.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 8 de julho de 2013)

Sobre a chuva

Pinga nua e solta,
Abafa o sol
E lúgubre se despedaça no chão

Quase infame se arrasta
Preenche a tarde
E aos poucos morre distante

Cada pingo uma esquete
Um sainete...
Embebecido de significados e sabores

E ela escorre devagar
Como um choro calado
Um pranto contido

E a observo com encanto
Embebecido pela melancolia
De sua sonoridade muda...

Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 7 de julho de 2013)